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sexta-feira, 4 de maio de 2018





Um 1º de Maio a caminhar

Há cerca de um ano a União de Freguesias da Tourega e Guadalupe, desafiou o José Pedro Calheiros e a SAL, para testar um percurso pedestre ainda transitável (com quase 25 km) e que permite a visita a alguns dos principais monumentos arqueológicos do seu território. Desse primeiro ensaio que teve pouca adesão, talvez por deficiência de divulgação, demos então conta neste blog    (ver aqui) .



Resolvemos por isso repetir a experiência, até porque ainda não desistimos do propósito que norteou esta iniciativa: marcar no terreno o percurso, obedecendo às normas e regras do pedestrianismo e obter a respectiva homologação junto das entidades competentes. Esta zona, por razões óbvias já é regularmente procurada por grupos turísticos organizados e enquadrados por empresas especializadas, que percorrem sectores específicos do trajecto em causa. No entanto julgamos que haverá condições para que essa actividade possa ser também realizada sem a necessidade desse enquadramento, o que, certamente, atrairia um número crescente de praticantes, com todas as vantagens.


Ao contrário do que aconteceu o ano passado, a caminhada do passado dia 1 de Maio, atraiu este ano três dezenas de interessados, quase todos forasteiros (Évora, Borba, Lisboa, Almada, etc...) que, julgamos nós pelos comentários e reações, apesar do cansaço, deram por bem empregue a experiência.

A foto de grupo no Cromeleque dos Almendres, onde se iniciaria a última etapa do percurso.

Por razões de divulgação, o início e final da caminhada, foi sinalizado junto do futuro "Centro Interpretativo dos Almendres", uma estrutura em início de construção e que esperamos venha a ser uma estrutura de apoio para este tipo de iniciativas e actividades de cariz turístico-cultural. Infelizmente e ao contrário do que estava previsto, dadas as condições climatéricas, as obras estão muito atrasadas. Ainda assim, por coincidência, nas vésperas da caminhada, tinham sido betonadas as respectivas fundações, operação registada em foto magnífica do Mário Carvalho, um dos promotores deste projecto.

A partida e a chegada, aconteceram junto ao futuro Centro de Interpretação dos Almendres. A foto do Mário de Carvalho regista o momento da betonagem dos alicerces que aconteceu na véspera do passeio.

As ruínas do Moinho da Ponte

A velha Ponte, perto do Monte das Pedras

Paragem para apreciar uma rara perspectiva de uma "mamôa pré-histórica"

Para evitar danos maiores,  (e na falta de uma intervenção de restauro urgente)  recentemente foi sinalizado o perigo que representa para os visitantes, a periclitante situação da Anta Grande do Zambujeiro...

A obrigatória passagem por Valverde, junto à cerca da Mitra


Apreciando as vistas no "Castelo do Giraldo"

Junto ao Menir dos Almendres, já no regresso a Guadalupe
Descendo dos Almendres para Guadalupe no confronto permanente com o trânsito turístico ininterrupto...que faz deste monumento o sítio pré-histórico mais visitado do país.

sábado, 19 de novembro de 2016


O Ti Cristéta e as Pedras Talhas_ testemunho na primeira pessoa



LINK para o testemunho do Ti Cristéta, disponível no YOUTUBE:



Recentemente, acolhendo uma minha proposta, a União de Freguesias da Tourega e de Guadalupe, promoveu a recolha em vídeo dos testemunhos pessoais de três habitantes já idosos da freguesia os quais, de alguma maneira, têm que ver com o CROMELEQUE DOS ALMENDRES. Desde logo o Ti Bento (Bento Calhau) residente no Monte das Pedras que, ainda jovem, participou nos primeiros levantamentos de pedras megalíticas no sítio das Pedras Talhas, mesmo antes da sua identificação pelo arqueólogo Henrique Leonor de Pina, trabalhos executados à ordem do Engenheiro Miguel Soares, antigo proprietário da Herdade. Nesses trabalhos participaram também o Ti Samina, que ainda conheci no Monte das Pedras mas falecido vai quase para duas décadas e António Canaverde, do aldeia vizinha da Boa Fé, onde faleceu há muitos anos. Foi também recolhido o testemunho de Manuel Estevão, "canteiro" reformado da Câmara Municipal de Évora, responsável pelo restauro de alguns dos menires dos Almendres, intervenção promovida pela Câmara Municipal de Évora no final dos anos 80 e coordenada por Màrio Varela Gomes. A qualidade técnica e eficácia do trabalho de Manuel Estevão não passou despercebida na altura e ele viria mais tarde a ser "requisitado" para outros importantes restauros megalíticos, desde logo no vizinho Cromeleque da Portela de Mogos, mas também na reerecção do gigantesco Menir de Meadas, em Castelo de Vide, trabalho coordenado por Jorge Oliveira, há duas décadas atrás.

Guardando a divulgação dos testemunhos destes intervenientes para mais tarde, hoje darei especial destaque ao decano do trio, Joaquim Feliz Casquinha, mais conhecido por Ti Cristéta por razões que ele próprio explica no vídeo. A sua especial ligação às Pedras Talhas, que ele conhecia desde menino como toda a gente em Guadalupe, viria a acontecer pela sua participação nas escavações ali realizadas em meados dos anos 80 por Mário Varela Gomes. Trabalhador rural toda a vida, praticamente sem escolaridade, o Ti Cristéta mostra ainda hoje, apesar da sua idade, um discurso organizado e informado, por vezes arrumado em versos, produto de uma vasta cultura popular adquirida na escola da vida. É aliás notória a nostalgia e o respeito com que fala da sua participação nos trabalhos arqueológicos nos Almendres, como algo de muito especial que aconteceu na sua longa vida de trabalho. Esta é uma situação muito comum e que pode ser testemunhada por todos os arqueólogos que já recorreram a trabalhadores rurais nas suas escavações. Eu próprio recordo a emoção do meu falecido vizinho Samina quando há muitos anos soube que eu era arqueólogo e que conhecia o José Arnaud, o Martin Hock ou Leonor de Pina. É que Samina colaborara com aqueles arqueólogos nas escavações do início dos anos 70 na Corôa do Frade e posteriormente na Anta Grande do Zambujeiro, conservando ainda excelente memória em relação a essas experiências. Guardava até velhos recortes de jornais da época que se referiam a essas escavações.

O Ti Cristéta hoje já pouco sai da sua casa de Guadalupe e já quase não consegue cuidar do seu grande quintal. Mas não consegue estar quieto e por isso, passa boa parte do dia a fazer pequenos objectos de madeira, recordações materiais da sua própria vida e que vai guardando no seu pequeno "museu privado". No final da recolha do seu testemunho nos Almendres, convidou-me a visitar esse pequeno santuário de memórias e lembranças de toda uma vida de trabalho. 

Para além de algumas imagens que testemunham esta experiência proporcionada pelo Ti Cristéta, deixo também a transcrição das "quadras" por ele recitadas de memória na gravação agora divulgada, e que terão sido por si imaginadas num dos intervalos das escavações nos Almendres. Nelas, para além da referencia ao arqueólogo Mário Varela Gomes, aparece citada outra figura, o Francisco Serpa, um velho amigo de Reguengos de Monsaraz, à época colaborador próximo do Mário Varela. O Xico radicou-se há muitos anos no Algarve (foi durante anos o zeloso guardião da capela de Nª ª de Guadalupe, entre Lagos e Sagres) mas teve nos anos oitenta um papel que não pode ser esquecido na valorização dos Almendres (em cujo "velho monte" viveu largas semanas...) e que oportunamente aqui procurarei destacar.

Aqui ficam as "quadras do Ti Cristéta"

Se estas pedras falassem
Contavam aos visitantes
Com relações sexuais
Aqui estiveram dois amantes
Estava alguém a observar
Esta grande barracada
Aqui mesmo ao pé da estrada
E isto em pleno dia

Ele já a trazia
Atracada pela cintura
E inda qu’ela se queixasse
Mas isto tudo diria
Se esta pedra falasse

O Cromeleque dos Almendres
Merecia uma sentinela
Foi restaurado plo Xico Serpa
E plo Doutor Mário Varela

Está uma obra muito bela
Foi feita por seres humanos
Diz que tem cinco mil anos

Respeitem-no bem visitantes
Porque a abusar um bocadinho
Já aqui estiveram dois amantes

O sítio das Pedras Talhas
Fica-lhes em recordação
Ela não se quis deitar no chão
E tinha medo de se sujar
Mas assim vieram abusar
Dum monumento nacional
Não devem cá voltar mais
A este sítio onde tiveram

Relações sexuais

O Ti Cristéta no seu "museu", talhando uma colher em madeira.








sexta-feira, 25 de março de 2016

"DIA SANTO NO CROMELEQUE"~



É desde sempre do interesse dos arqueólogos que o público tenha acesso aos resultados do seu trabalho. De algum modo, é essa interação com os outros, que dá sentido à pesquisa arqueológica, pese embora o prazer que cada um possa retirar da descoberta e do estudo dos vestígios do passado. Não estou directamente ligado à investigação feita nos Almendres, embora por motivos vários (técnicos, administrativos e até políticos) a sua sorte me interesse há pelo menos 3 décadas. Seria pois normal que situações como a que acabo de viver hoje fosse razão para um imenso júbilo não fosse o terrível reverso da medalha. É impossível calcular quantos visitantes o Cromeleque dos Almendres terão recebido hoje, mas pela amostra que observei entre as 11 e as 12h desta manhã, terão sido seguramente muitas centenas senão mesmo alguns milhares. É certo que o dia, soalheiro e feriado (sexta feira santa), com muitos turistas espanhóis de férias, é propício. Mas de facto não recordo tanto carro, carrinha e aut-caravana, a ir e vir do Cromeleque, quase em fila cerrada, para não falar já dos muitos que a pé e com todos os inconvenientes da poeira se aventuravam também a caminho deste sítio que hoje já pouco tinha de verdadeiramente "mágico" ou "sagrado"... mais parecendo uma feira, com todo o respeito por estas...

Que outro sítio arqueológico do país, (a excepção será naturalmente Conimbriga) atrai hoje tanta gente como os Almendres apesar da (quase) total ausência de um mínimo de controle e organização e (felizmente) apesar de um acesso que não é propriamente muito convidativo (4 Km x2, de um estradão muito irregular e poeirento)? A monumentalidade e singularidade do sítio e, mesmo assim, alguma preservação ambiental (muito prejudicada em dias como o de hoje), a par da divulgação feita pelos próprios visitantes (graças também às redes sociais) explicam certamente esse "sucesso". Mas infelizmente, não evitam nem minimizam os efeitos negativos do excesso de visitantes (já há muito observado na erosão do solo) e sobretudo não previnem eventuais actos de vandalismo, sejam estes resultantes de alguma ignorância cultural ou mesmo de espírito destrutivo, puro e duro. As fogueiras, o despejo de lixo ou mesmo algum "grafitismo" criminoso nos menires, começam a ser demasiado frequentes e não podem ser ignorados. Para já não falarmos na atração que estes sítios representam para os amigos do alheio e que as crescentes queixa na polícia mostram estar em crescendo.

Que fazer pois para minimizar os aspectos mais negativos de uma situação que, em princípio deveria ser considerada como uma mais valia para a cultura, o património e até para o desenvolvimento local e regional? Naturalmente tenho as minhas próprias opiniões sobre o assunto que tenho defendido junto dos, em pincípio, principais interessados. Proprietários (sim o monumento e não apenas o "terreno", à face da lei portuguesa, é privado! apesar de ser Monumento Nacional), tutela do património (MC/Direção Regional de Cultura), autarquias (Câmara e Junta de Freguesia) e julgo que, brevemente poderá haver sobre este tema algumas novidades. Mas por agora resta-nos esperar que nada de grave aconteça ao monumento ou aos milhares de visitantes que, fora de qualquer regra ou controle, o continuam a procurar todos os dias, muito para além das "enchentes" de dias feriados ou santos.












terça-feira, 19 de janeiro de 2016

As "pedras talhas" e a neve

Já não consigo ter a certeza quanto ao dia, mas foi a um domingo (talvez, 29 de Janeiro de 2006), pelo que está prestes a concluir-se uma década sobre um dos maiores nevões a que o Alentejo terá assistido nos últimos 100 anos. Alguns idosos lembravam-se de qualquer coisa parecida, nos anos quarenta ou cinquenta do século XX. Tratou-se de uma rara oportunidade para conseguir algumas imagens desconcertantes e as que consegui fazer nesse dia nos Almendres, onde apenas consegui chegar graças ao meu velho Patrol) tiveram natural sucesso. Para além de ilustrarem os calendários que a Junta de Freguesia de Guadalupe mandaria executar no ano seguinte, deram a volta ao mundo, graças ao poder crescente que a INTERNET já tinha por essa altura, contribuindo ainda mais para a divulgação deste monumento único da nossa região. Aqui deixo no Blog das "Pedras Talhas" algumas dessas imagens de há uma década atrás.











A neve, naturalmente, também marcou presença na vizinha Serra do Monfurado.

Na Gruta encontravam-se nesse dia, "em serviço de guardaria turística", o  Pedro Carapetudo e a Helena. Por razões que nunca percebi, o Pedro não aproveitou a boleia da Helena e resolveu esperar pelo pai que, por causa do "nevão" já não conseguiu chegar de carro à Gruta. Avisado da situação, alertei a GNR que o colocou em lista de espera por algumas horas dando-lhe tema para uma "história" para contar ao filho (que entretanto já teve, com a Helena...).



terça-feira, 2 de junho de 2015


Almendres- Solstício 2015





Ontem dia 1 de Junho começou a ser divulgado na NET o cartaz-programa da 4ª festa do “Solstício Megalítico de Guadalupe”, que este ano acontecerá no domingo dia 21 de Junho (o momento exacto do início do Verão será às 16,38 h). Será pois oportuno recordar as circunstancias que rodeiam esta (quase) tradição local. É verdade que há muito tempo que os Almendres vinham a chamar a atenção de grupos alternativos de variadas inspirações (new age, esotéricos, neoceltas, etc…), sendo normalmente citado na “literatura especializada” nacional de lugares "misteriosos"ou servindo mesmo de palco para “cerimónias rituais” dos mais variados tipos e géneros. Pessoalmente como arqueólogo e residente, nunca me incomodaram tais manifestações desde que estas respeitassem fisicamente o monumento, o lugar e a sua envolvente, o que infelizmente nem sempre acontece. As fogueiras, eventualmente provocadas em contextos menos “espiritualistas”, são apenas um dos aspectos negativos mais evidentes ainda que não necessariamente associado às ditas manifestações. Recordo em especial, uma noite de “rave”, obviamente clandestina, organizada por alternativos “hippies” há quase duas décadas (julgo que após expulsão da cidade de Évora) com música em altos decibéis que ecoou pelo vale durante quase toda a noite…

Finalmente quando no Natal de 2011, após longos meses de “conversações” com a família actualmente proprietária dos Almendres, se conseguiu autorização para a instalação de um parque de estacionamento, a uma distancia conveniente do monumento, pareceu-me que estavam reunidas algumas condições para usar o fantástico sítio dos Almendres,  como cenário ideal para eventuais manifestações artístico-culturais que ajudassem a população local a envolver-se mais na salvaguarda e valorização do monumento. Naturalmente,tais manifestações ainda que de âmbito mais laico, poderiam integrar eventualmente essa já forte tradição de relacionamento do local com o calendário cósmico, que como já aqui referimos em anterior post a propósito do último equinócio, tem algumas raízes factuais em estudos já bem antigos do Professor Marciano da Silva.
http://pedrastalhas.blogspot.pt/2015/03/almendres-o-sol-falhou-o-equinocio-hoje.html.

Em 2012, uma vez criado o parque (provisório) de estacionamento, e realizado  pela eco-brigada municipal, um significativo esforço de recuperação do solo do Cromeleque, muito degradado pelo pisoteio turístico e pela erosão pluvial, a população de Guadalupe, enquadrada pela Associação de Idosos e pela Junta de Freguseia, decidiu lançar mãos ao projecto de, em torno do monumento, construir uma tradição de festa, associada ao Solstício de Verão. É verdade que a data não é a mais original nem mais adequada no contexto regional, já que a tradição das festas joaninas com grande expressão em Évora (feira de São João), não são mais do que a continuação cristã de um antiquíssimo costume que tem a sua origem registada em época romana mas que certamente remontará a períodos bem mais antigos… Mas, se qualquer dos equinócios poderia servir (há quem defenda que essa seria a orientação estrutural do Cromeleque), já o ambiente climatérico poderia não ser tão agradável. De qualquer modo em 2012 fizémos a 1ª festa, um tanto ou quanto ambiciosa, repartida entre o Cromeleque e a aldeia, entre a despedida ao Sol poente na véspera do Solstício, e a saudação ao Sol nascente na madrugada seguinte. Os passeios pedestres, dando a conhecer a locais e forasteiros a paisagem envolvente, têm sido recorrentes,  tal como alguma pedagogia ambiental e patrimonial, concretizada com a participação de colegas arqueólogos e biólogos em ateliers de temáticas diversas. Finalmente em 2014, a própria autarquia produziu no local o primeiro espectáculo erudito. Pelas imagens anexas e quando preparamos a 4ª festa do solstício por várias razões bem menos ambiciosa), relembramos o essencial da experiência passada. Julgo que o desejado envolvimento da população de Guadalupe está longe de atingir o nível que procurávamos há quatro anos mas uma coisa é certa já. A nenhum dos nossos vizinhos é agora indiferente o interesse forasteiro que sentem em torno de um sítio, as Pedras Talhas, que há muito conheciam mas que pouco ou nada valorizavam. Falta talvez apenas um pequeno passo para que finalmente o assumam como uma herança colectiva, recebida dos pais e avós, a qual devem legar aos seus filhos e netos, se possível, enriquecida com o seu próprio contributo. A isso se chama "património".








segunda-feira, 20 de abril de 2015

"Monfurado, A mui ignorada serra do Sul de Portugal"




Em 8 de Janeiro passado publiquei aqui a cópia de uma reportagem de Mário (Vieira) Henriques, publicada no Diário Popular de 13 de Outubro de 1967 -  http://pedrastalhas.blogspot.pt/2015/01/a-mais-bela-maquina-de-viajar-no-tempo.html. Na sequencia de mais uma visita guiada que no sábado dia 18 de Abril tive ocasião de fazer nos Almendres, por ocasião do Dia Internacional dos Monumentos e Sítios, numa organização do Grupo PróÉvora, aqui deixo mais um documento para a história da identificação deste sítio, (ocorrida em 1964), em concreto, um texto de 1965 do Dr. José Fernandes Ventura, (então professor na Escola de Regentes Agrícolas da Mitra (Valverde) ilustrado com fotos do Eng. Albano Salles de Mattos Fernandes. O texto em causa foi publicado no nº 10 da revista da "Lavoura Portuguesa", datada de Outubro de 1965 e é um importante contributo para a história da descoberta, graças em parte às fotos que o acompanham. De facto comprovam aquilo que já sabíamos por testemunhos directos de alguns intervenientes no processo, de que a quando da identificação do sítio por Henrique Leonor de Pina em 1964, alguns meses antes da visita de Fernandes Ventura com o Coronel Afonso do Paço, Presidente da Associação dos Arqueólogos Portugueses em Novembro de 1964, uma parte dos menires tinham já sido recolocados na vertical por iniciativa do proprietário, Eng. Miguel Soares. Nas mesmas fotos é possível observar ainda outros menires, semi-tombados mas ainda na provável "cama" original. O artigo de Fernandes Ventura, retratando um período de importantes descobertas nesta região (Almendres, Gruta do Escoural, Castelo do Giraldo, Corôa do Frade, etc...) termina com uma "nota da redacção" que ilustra nas suas entrelinhas alguma conflitualidade típica entre a pequena classe arqueológica da época, funcionando regionalmente à sombra dos "notáveis" da capital. Depreende-se do corpo do texto que Fernandes Ventura pensava ter descoberto com Afonso do Paço, o "menir dos Almendres", mas pela "nota", dá-se conta conta de que afinal Leonor de Pina já o conhecia, porque o tinha já referido numa entrevista entretanto concedida ao Diário Popular. Esta referencia levanta outra questão. A reportagem do Diário Popular que acima referimos, data de Outubro de 1967, bastante posterior portanto a este artigo da "Lavoura Portuguesa", pelo que haverá uma "entrevista" anterior dao DP, que desconheço, na qual Pina terá feito referencia aos achados dos Almendres, entretanto referidos no relatório não impresso que apresentou à Junta Distrital de Évora, respeitante às suas actividades arqueológicas entre 23 de Março e 3 de Abril de 1964.
Nota: uma explicação para a fraca qualidade dos originais aqui fotografados. O exemplar do nº 10 da Lavoura Portuguesa que possuo em muito mau estado, veio ter às minhas mãos em circunstancias algo fortuitas... Quando por ocasião da coordenação dos trabalhos arqueológicos do Alqueva assentei por meia dúzia de anos arraiais em Mourão, deparei a certa altura com uma antiga casa de lavoura abandonada e completamente devassada. Numa inspeção mais curiosa do que necessária, deparei numa das dependencias com restos de documentação diversa, já semi queimada e, obviamente, deixada para trás. No meio da papelada, chamou-me a atenção a foto do "menir" dos Almendres ilustrando a capa de uma velha e já rasgada revista que resolvi "salvar" do lixo...





Na imagem de cima vários menires já colocados na vertical por iniciativa do Eng. Miguel Soares, sendo bem visível a marca das zonas que estariam semi enterradas, face à diferença óbvia de "colonização " pelos líquenes. Na foto inferior, menires ainda na posição semi tombada, correspondendo ao sector mais a Ocidente do monumento.

Outros menires já na vertical, evidenciado as "marcas" correspondentes às zonas anteriormente tombadas. De notar ainda a densidade de vegetação, posteriormente cortada a pedido de Leonor de Pina para facilitar o levantamento topográfico, única intervenção de campo que faria neste monumento, apenas escavado nos anos 80 por Mário Varela Gomes.